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A Dama do Paço

Em 2008, Dona Lourdinha recebeu a incumbência de ser a guardiã da calunga do maracatu. Há três anos brincava de baiana, mas foi escolhida para substituir sua filha numa das posições de maior responsabilidade dentro do brinquedo. Quem leva a boneca, carrega a proteção espiritual da nação. É nela que, na maioria das vezes, está o calço coletivo do folguedo, a força para brincar os três dias de Carnaval sem atrapalho. “Quando carrego Carolina sinto como se estivesse mais leve. É uma emoção muito grande ser a Dama do Paço”.

Persistência de menino

Quando João Padre se dava conta, o menino Pedro estava escondido dentro do caminhão que transportava os folgazões do Cambinda. A pergunta era sempre a mesma: “O que você está fazendo aqui?”. E a resposta se repetia: “Eu vim ver o maracatu”. Como já estavam no Centro da Cidade, distante sete quilômetros do engenho, o jeito era deixar o garoto ficar. Foi assim, na base da persistência, que em 1992, Pedro Alexandre de Lima se tornou rei do Cambinda, permanecendo no trono até hoje, 26 anos depois. “Vou me manter até quando Deus me der vida”.

Alpercata, farinha e azougue

Seu Zé Pequeno é de um tempo em que caboclo de lança brincava de alpercata, usava gola de espelhos, andava a pé, dormia em casa de farinha, comia fubá com cambinda e tomava azougue. “A gente misturava pólvora com cachaça, limão e liamba, mexia e bebia. Mas isso é coisa de caboclo velho, hoje não tem mais. Ave Maria! O azougue era forte demais, fazia a gente ficar ligeiro”. Hoje com 77 anos de idade e 37 de cabocaria é o mais velho do Cambinda em idade e em posto. Depois do centenário, Seu Zé Pequeno fala em aposentar a matinada.

Cambinda 100 anos

O baque solto está em festa pelo aniversário do Maracatu Cambinda Brasileira. São 100 anos de, antes de tudo, resistência do maracatu rural mais antigo em atividade contínua do Brasil. Criado em 5 de janeiro de 1918, no Engenho do Cumbe, e batizado com o nome do peixe que alimenta e dá movimento às águas da região, o Cambinda Do Cumbe – como é chamado carinhosamente pelos brincantes – resguarda em seu terreiro a paixão de um povo de devota a sua vida pela brincadeira e religiosidade. Uma festa que se faz todos os dias do ano, com muita raça e dedicação à cultura popular. Hoje, mestres, caboclos, baianas, catitas, ternos e folgazões de todas as nações reverenciam o centenário do mais tradicional grupo de baque solto, e que venham mais cem anos de sambadas e muito brilho!